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Esta Luz


                                              
                                      Imagem  Bryce Cameron Liston


Esta luz que vês
no horizonte
é o silêncio que se acende
bruxeleante,
no lugar incerto
a que pertences.
Não sei se nela te encontro
ou se te perco
como estes passos
beijando a calçada
sob este luar incerto...
Nem sei se és tu
o limiar cósmico
desta penumbra
que me desnuda
ou a mão que me cinge
e prende
quando a luz
ao entardecer
de novo se (re)acende...
Nas tuas mãos
brilha este raro cometa:
o círculo mágico da noite
onde as borboletas
afogam as quimeras
quando a paixão assim as espreita
E no entanto, é sabido
que não há luas delirantes
na poeira do poente
apenas do teu olhar
por vezes
uma lua azul se desprende


Por LibeLua

Fontes:
www.oblogdalibelua.blogs.sapo.pt/texto
www.once-upon-a-midnight-dreary2.blogspot.com

Saudade


Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Pablo Neruda

Desculpas



Em um universo paralelo
Perdidos, prisioneiros
De uma prisão que não podemos sentir
Uma prisão sem sentidos
Sem nenhum sentimento

Um muro invisível
Demarca nossos limites
Limita nossos destinos
Nos deixa sozinhos
Sem nenhum sentimento

Como uma máquina seguimos
Com um tipo de sentimentos racionais
Mas não conseguimos o principal
Não alcançamos o óbvio
Sem nenhum sentimento

Remorso, culpa, dor
A Dor no coração nos tortura
Esmaga nossos corações
Aperta nossas algema-de-sentimentos
Sem nenhum sentimento

Tato, paladar, olfato
Eu não sinto
Não tenho sentimentos
Talvez tenham se perdido
Talvez eu esteja perdido.


Renan Peron

Fonte:/www.spectrumgothic.com.br

Sossega, Coração!!


Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa, 2-8-1933.

Fonte: www.insite.com.br

Meu Pai José!




José


E agora, José?
A festa acabou,
a luz acabou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora José?
e agora você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio-e agora?

Com a chave na mão,
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José.

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade

A Vida é uma Vitrina...



A Vida é uma vitrina de tecidos.
A gente, por instantes,
fica de olhos perdidos
na beleza das telas deslumbrantes.
Depois, entra na loja e vai comprar.
Caixeirinha gentil, a Ilusão
vem vender ao balcão
e não se cansa de mostrar,
não se cansa
de exibir delicados,
rendilhados,
leves panos de Sonho e de Esperança.
As mãos tocam de leve
na leveza das telas.
Não vá o gesto, por mais breve,
esgarçar uma delas!
Todas tão lindas! Mas a que fascina
não está ali na grande confusão
das peças espalhadas no balcão.
E a gente diz,
num ar feliz:
"Levo daquela rósea, muito fina,
exposta na vitrina."
Logo o Destino vem (da loja é o dono)
e fala sobranceiro, com entono:
"É artigo raro.
Marca, padrão e cor: - Felicidade.
É um artigo de alta qualidade
o mais caro
de todos os tecidos.
São cortes especiais...e estão vendidos!"
...................................................................
E a gente vai comprar do áspero pano
que se encontra na seção do Desengano.

Graciette Salmon (Poetisa Paranaense)

O Bicho


Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um HOMEM.

Manuel Bandeira