Sentada no Meio-fio



Não posso mais roer os nervos enquanto as horas passam e você não aparece. Preciso me poupar. Não pretendo mais sofrer, depois, quando você sumir de vez. Sofrer por amor é pura vaidade. Vou olhar para retratos meus e, de novo, sentirei orgulho de mim. Fotos minhas antes de você. Quando eu ainda não tinha provado desse seu veneno vicioso. Da saliva que se fez heroína. Do cheiro que se fez lança-perfume. Deveria ter uma tabela antipaixão como as que fizeram para os tabagistas. Marcaríamos um xis nas vezes em que pensássemos no outro. Assumindo assim nossa fraqueza. Contando as horas em que fôssemos capazes de esquecer. Poucas, no meu caso, já que tudo me lembra você. E de noite as coisas pioram. Mas quero, e posso, vencer essa semana. Sobreviver à abstinência de você por sete dias. Ao éter da mentira, que deixou-nos malucos e cegos. Estávamos correndo descalços entre os destroços da cidade grande. Seremos crianças? Seremos julgados como adultos. Sendo a culpa toda minha, que acreditou no ar que respirava. No sujo. Na inveja. Perdemos tudo na paisagem desolada dessa cidade. Cidade feia. E, no feio, nos perdemos. Ou me perdi. Sozinha. Para depois ficar aqui, sentada no meio-fio.

Fernanda Young

Fontes:
http://pensador.uol.com.br/texto
http://isaiasfideles.wordpress.com/imagem

3 comentários:

Rô... disse...

oi Elaine,

acho engraçado como as pessoas,
ou a maioria delas enxerga amor e paixão,
parece um fardo,que trás consigo uma grande dor...

para mim o amor é compreensão,
cumplicidade e vida...
a paixão são os loucos e frenéticos desejos de um amor constante e seguro...

beijinhos,linda

Boca da Noite disse...

Não compreendo como as pessoas especialistas em literatura não olhem com bons olhos essa mulher que sinto ser séria em sua inscultura sobre papel.

Será que esse desgosto se dá por ela usar às vezes a mídia ou não (pois por seu ofício como apresentadora essa promoção se faz por si só, por si mesmo) pra promover talvez sua literatura? Entretanto, como não separem o fato, até por mim percebido, de sensacionalismo em mídia do de existir em sua obra arte?

Um amigo ávido por literatura daqui leu aritmética e amou. Confio em sua opinião. Digo, pois nunca li Young. Ainda não. Só textos pequenos, trechos. Reluto para lê-la, pois tenho uma fortíssima impressão que irei me embebedar tamanha aceitação.

Obrigado por leres e comentares em meu modesto blog.

Obrigado por tuas palavras tão carregadas de carinho, sinto o mesmo por ti e por esse espaço gosto de se estar.

Boa noite!

Malu disse...

Menina, mais um belo descrever de sentimentos e sensações...
Abraços