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Bandas & bandas


Vejo pesquisa feita durante as festas de fim-de-ano sobre a melhor banda existente no mundo e no Brasil. Praticamente, não houve duas opiniões iguais. Caras legais e caretas, gente pobre, gente rica, todos tinham preferências em bases radicais, não admitiam concorrência, escolhiam determinada banda e amaldiçoavam as outras, eliminando fisicamente as demais.

Confesso (desnecessariamente) que não conhecia a maioria das bandas citadas. Mas me admirei que ninguém citasse a única banda que é banda incontestavelmente, a Banda dos Fuzileiros Navais (reconheço que esta é forte, mas que fazer?)

Excetuando os dobrados militares, que trazem péssima recordação dos tempos totalitários, o repertório é quadrado mas vai fundo no osso, com os sucessos de ontem certamente, mas que amanhã continuarão sendo lembrados e tocados.

Inclusive "A banda", do Chico Buarque, que foi o chute inicial de sua carreira. Que nada mais é do que uma homenagem às bandas que passavam e havia alguém a toa na vida para ver a banda passar.

O conceito de banda mudou, o repertório também. Um repertório elástico, que funciona como um fósforo que se risca, ilumina por um momento, pode até transmitir sua chama a uma vela mais duradoura, e de uma vela acender outras, milhares de chamas clareando a vida e o mundo de forma permanente.

Na alternativa, um fósforo aceso pode botar fogo numa casa, numa rua, numa cidade. Mas depois acaba como um fósforo queimado --uma das metáforas mais usadas para expressar a inutilidade de uma coisa ou causa.

Qualquer banda, esta ou aquela, das centenas que surgem todos os dias e em todas as partes, cumprem sua função de fósforo, valem enquanto estão acesas, iluminando um mundo que, sem elas, seria mais triste e escuro.

Carlos Heitor Cony


Fonte:www1.folha.uol.com.br

O Ladão de Mulher

Antigamente, quando o circo chegava às cidades, as crianças cantavam nas ruas: "Hoje tem goiabada? Tem sim senhor! O palhaço o que é? É ladrão de mulher!" Que história é essa? Ladrão de mulher?

Nada disso. O palhaço é apenas o ladrão da tristeza, o mensageiro da alegria. Com seu nariz vermelho, seu colarinho folgado, a boca enorme, as botas desencontradas, uma em cada direção, ele transforma o mundo numa bola colorida que todos podem jogar, pobres e ricos, feios e bonitos.

Ele faz da vida um exercício de paz, uma fantasia em que todos ficamos iguais. E quando rimos do palhaço, estamos rindo de nós mesmos e nos perdoando de nossos tombos, de nossos erros, de nossas tristezas.

Vou lembrar aquela história do palhaço que perdeu o filho. Abraçado à mulher, ele chorava a perda de quem mais amava na vida. Mas o circo se encheu de gente, a platéia batia palmas e exigia o palhaço em cena.

E lá ia ele, com seu nariz vermelho, o colarinho folgado, a boca enorme e vermelha gargalhando. E, dentro do peito, o coração soluçando.

Carlos Heitor Cony

A Mulher e o Mundo




Vocês já ouviram dizer por aí que o lugar da mulher é no fogão. Também já ouviram dizer que o lugar da mulher não é no fogão. Que diabo, onde é afinal o lugar da mulher? Antes de mais nada, o lugar da mulher, como o do homem, é na vida. E vida é uma porção de coisas. Ninguém é melhor do que ninguém porque faz isso ou aquilo. O importante é fazer bem o que se faz, ter prazer naquilo que se faz.

Em geral, atribui-se aos homens o desejo de reduzir as mulheres às condição de escravas domésticas. Muitos são assim e continuam assim. E há mulheres que gostam disso, encontram prazer em servir. E se o fazem com amor, tudo bem.

Outras preferem ir à luta. Enfrentam cara a cara a concorrência, a deslealdade, a puxação de tapete, a necessidade de crescer, cerscer, crescer - até chegar a hora em que, cansada de tudo, olha para sua casa, talvez olhe para seu fogão, e pense consigo mesma: - "O que a vida está fazendo comigo? É isso mesmo que eu quero? "

O certo é o contrário. Fazer a própria vida, seja lá onde for. Seja lá como for. Seja lá com quem for.

Carlos Heitor Cony



Fonte: www.comamor.com.b